Paulo Barbosa da Silva, 20 anos, monitor do Programa Esporte Talento, do Centro de Práticas Esportivas da USP, SP, tricampeão brasileiro de canoagem
"Entrei no Programa Educação pelo Esporte, em 1996, pela canoagem. Ali eu descobri que a educação física não é só esporte. Nos clubes, a gente é treinado para competir. No Programa, a gente aprende por meio do esporte a se comportar na vida, respeitar as regras, e conhecer o outro. A idéia não é só treinar, mas se divertir.
Construímos um vínculo de amizade forte entre os alunos e um laço gigantesco entre as famílias. A primeira diferença entre treinar num clube e no Programa é a cobrança. No Projeto Esporte Talento, do Programa Educação pelo Esporte, a gente não se preocupa só em se preparar fisicamente, mas em melhorar como pessoa. A segunda diferença é o objetivo. O atleta sabe que tem de treinar, faça chuva ou sol, para melhorar o rendimento. Mesmo que você se esforce muito, campeão só tem um. Será que não vale à pena treinar então para conhecer pessoas, lugares e, quem sabe, conquistar outros objetivos na vida?
As regras do esporte são as mesmas da sociedade. Com o esporte construí meu papel de cidadão, meus valores, direitos e deveres. Aprendi que sou capaz e que faço diferença. Corro atrás do que quero e mudei a forma de me mostrar para os outros. A maior possibilidade que me deram foi a de construir minha identidade, que carrego para onde eu vou. Hoje eu faço faculdade porque consegui uma bolsa de estudo por meio da canoagem. Depois de formado, quero trabalhar com auto-rendimento ou iniciação esportiva. Comecei a competir nacionalmente em 97 e sou tricampeão brasileiro de canoa em longa distância. Remo de 30 a 35 quilômetros e meu recorde é de 3 horas e 20 minutos. Já participei de provas seletivas no Canadá, na Inglaterra e na Espanha.
Antes das competições e durante os treinos, a gente conversa com a equipe do Programa para trabalhar a frustração, a derrota, a vitória. Esse papo é muito importante. Estudo à noite na Universidade Mackenzie, treino à tarde e de manhã estagio como monitor do Programa. Me tornei mais crítico e defendo o que acredito. A canoagem foi um alicerce. Bolsa de estudo? Faculdade? Jamais imaginei. Eu morava em uma favela e nunca tive possibilidade de bancar meus estudos. Quando meus pais se separaram, a família se desestruturou. Aí vieram as competições e a gente começou a construir um novo laço. Todo mundo se mobiliza pra me ajudar. Minha mãe faz a marmita, meu pai, que é taxista, me leva e busca no aeroporto quando tem competição e leva junto minha mãe e irmãs.
Escrevo meus sonhos com um lápis que tem borrachinha na ponta. As coisas sempre mudam. Não tenho estrutura financeira para treinar na seleção brasileira. Se eu não conseguir, não é porque eu não posso. Sei do meu potencial. Isso eu construí no Programa. E a gente tem de estar sempre procurando soluções. A oportunidade é um cavalo com rabo na testa. Tem de agarrar logo quando ele passa. Uma das coisas mais importantes que aprendi no Programa é saber que a gente pode contar com as pessoas.